quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

DESLEALDADE

Antes, em casa...
Dei de beber em seu copo predileto,
mostrei o quadro que pintei no natal.

Contei a história do nosso primeiro móvel,
Ofereci o licor que você ganhou de sua mãe,
Ouvimos músicas e folheamos seu jornal.

A beijei brevemente no corredor e nos sentamos no sofá novo,
Apresentei nosso canto de leitura, nosso cachorro, nosso jardim,
Passei um pouco do seu perfume e fomos embora.

Depois, naquele shopping perto do seu trabalho...
Ela quis assistir àquele filme que você está com vontade de ver desde o carnaval,
Juro, foi tudo o que aconteceu no dia que levei minha amante à nossa casa.


culturamix.com


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

FLAGELADO


Sugaste féu de minhas entranhas;
Num golfar grotesco espeliste teus anseios em meu peito cansado;
Arranha minha pele com tuas unhas negras e faça meu peito descansar outra vez...


A dor que me causa, as agruras a que me submeto são para agradar-te;
                                                  A espera é veneno que mata lentamente...
Ante esta desdita, minha carne treme e implora: arrebata-me!


Venha de uma vez por todas e me possua,
Ondas gélidas de saudade invadem meu sangue;
Faça com que estas ondas se tranformem em calor, calor nas tuas mãos.


  By Anndéia  


 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Eclipse de-Mental

Tive receio, não, tive medo; verdadeiro pânico de não voltar a escrever. Lembrando de "Cartas a um Jovem Poeta - de Rainer Maria Rilke", eu posso dizer que morreria se me fosse vedado escrever. Estou dizendo isto porque fui acometida, recentemente, por uma doença que me tirou o ânimo de escrever. Vou lhe contar...

Há pouco tempo minha existência passou por grandes tormentas, enormes catástrofes naturais, inundações terríveis..., enfim algo que meu espírito traduz como "Estado Lastimável de Cólera e Loucura (ELCL)".

O ELCL me arrebatou, levou para longe minha serenidade, tirou minha vontade de sorrir, surrupiou descaradamente meu poder de discernimento, arrefeceu minhas forças físicas, tornou minha mente um banheiro de botiquim de quinta categoria, me cegou, aniquilou e zombou de  meu auto-controle.

Como, por Deus, encontrar beleza e relevância em expressar tamanho prazer na sede de vingança e na vigorosa força motriz da revolta; tamanha revolta que se médica fosse portaria no bolso do meu jaléco uma faca para matar moribundos. Tão tola que seria capaz de beber veneno para lombriga descomida; absurdamente insana que me armaria de flechas para atingir beija-flores; sádica, que acenderia dinamite entre meus dentes.

A cólera me proporcionou a imensa satisfação de saber que posso ser tão perigosa quanto um animal ferido e encurralado; saber que meus pensamentos podem ser bem piores que canto lírico numa balada eletrônica, ou ainda, meus atos mais desconexos que oferecer luneta a um cego. 

Lástima maior é sentir pena de si mesma, porque querer ser digna de pena é tão comum e tão, proporcionalmente, de mal gosto quanto pagar para ver um show do Luan Santana.

Quanto a loucura, insisto em vê-la de forma positiva, ela é minha salvação. A loucura é o que proporciona aos seres insatisfeitos fugirem de sí mesmos, sairem dos padrões, esquecerem-se de lembrar do fardo a carregar; etc. A loucura é a única possibilidade de eu ser inocentada ao praticar o inapropriado... No entanto, o risco de permanecer louca é o que preocupa.

Desta feita, já covalescente, tenho consciência plena que aos seres quase normais (como eu) resta apenas a grata certeza de saber que podemos ser sequestradas emocionalmente a qualquer momento (kkkk). 

Sei muitas coisas, agora que meu ELCL passou:  sei que não escrever é minha sentença de morte; sei que os sentimentos negativos também são - evidentemente -um pedaço de mim e sei que insistir em negá-los seria como me acovardar e me submeter ao domínio do mal dentro da prisão chamada culpa. 

Existe a sombra, aceito, mas minha mente prefere a luz!

domingo, 1 de janeiro de 2012

Anita Mulher! Eu anta!

Anita saiu de casa aos 14 anos de idade. Havia se apaixonado por uma mulher mais velha e simplesmente resolveu partir. Imagino a reação de descontentamento de seus parentes, principalmente seu pai - a quem ela tanto admira, contudo na época nada poderia ser feito para impedi-la, a menina era precocemente mulher e lésbica, ponto.
Mulher de grandes gestos e atitudes, voz leve com entonação firme - sabe usar muito bem os pequenos intervalos de silêncio e ao dialogar faz - vez em quando - um olhar perdido no horizonte como se estivesse considerando se o que ouve deve ser realmente levado em conta de importância.
Tem coxas grossas, quadril largo, cintura bem delineada, seios medianos, mãos grandes, dedos grossos, cabelos castanhos com mechas louras; olhos, nariz e lábios desenhados com perfeição e harmonia. Aliás, foram seus olhos e lábios que me fizeram perder a noção de tempo e espaço naquela noite...
A ex-namorada dela foi embora para Madri, como a história cantada numa música  sertaneja da moda, deve ser por isso que a beldade sai prum happy-hour às sextas-feiras para ouvir pagodão e samba. Ninguém é perfeito, credo, minha musa gosta de pagode e acompanha as letras com olhos brilhantes e "voz-de-taquara-rachada" (segundo sua própria definição).
Anita adora pessoas, não consegue se ver num ambiente onde não possa interagir; cursa psicologia porque atua em gestão de pessoas. Tem 22 anos de idade, já foi casada, terminou seu último relacionamento há 5 meses e confessa que tem muito medo de sofrer. Este medo a fez bloquear-se afim de proteger seu coração! 
Percebi que não é do tipo de pessoa que se entrega facilmente às emoções, fica sempre alerta e reserva lugares (na vida das pessoas) perto da saída de emergência - qualquer sensação de perigo a faz bater em retirada. Ela me disse que este bloqueio que possui, também é um dos motivos que a fizeram cursar psicologia (embora em seguida tenha desmentido este espontâneo comentário) e que o curso a fez melhorar e ampliar seus horizontes de compreensão sobre si mesma.
Anita, entre razão e emoção, prima pela razão. Disse que não é do tipo "mulher-fácil", só beija no terceiro ou quarto encontro e nisto eu sei que não foi verdadeira. Mas atenuo este ato-falho, acontece que o ideal para ela seria sair algumas vezes, conversar, fazer amizade, para depois - sim - beijar alguém; porque para ela o beijo é uma atitude de muita intimidade e elevada importância. "Não é assim, garota?"-rs.
Vou dizer o que penso do beijo: é ponto inicial dum relacionamento intimo, quando há amor é um reencontro de almas.  Entretanto, quando estamos emocionalmente carentes, um beijo pode ser a mensuração de nossa alegria e auto-estima: tô na merda, hoje não beijei ninguém; ou tô revigorada, beijei à beça.
Naquela noite eu estava acompanhada, mas não pude deixar de notar Anita. Tive vontade de conhecê-la, saber seu nome, seus gostos, ouvir sua voz, saber sua idade, conhecer seu amigo... Quando fui embora lhe dei um aceno e pronto.
Passada uma semana, voltei ao mesmo local no intuito de encontrá-la e encontrei. Obtive todas as informações que pude - num primeiro instante -conseguir ao seu respeito; mas houve algo que me fez ruminar como uma égua no pasto, foi um fato indigesto que observei. A moça, tão sexy e felina, gosta de mulheres (afirmou), mas sempre namorou aquelas mulheres meio-machinhos. A vi conversando com uma destas mulheres que (infelizmente, admito) me desanimam a libido, assim como me desanimam homens que coçam as partes baixas em público. 
Sinceramente não sei onde me encaixo neste velho mundo bissexual, talvez tudo seja bem simples e eu (que faço tanto drama) esteja querendo racionalizar demais. A questão que sempre me interessou foi o prazer e a auto-realização de exercer a minha sexualidade de maneira livre, livre inclusive de preconceitos, porém vez enquando ainda me pego em desvios mentais incompativeis com o meu agir liberal.
Blefei e iludi a mim mesma! Anita, você é melhor que eu!

essaseoutras.com.br

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

UM BARZINHO NO MEIO DA CIDADE


Várias pessoas vão chegando após minha chegada; tantas outras pessoas lá estavam mesmo antes de eu lá chegar...
Como eu, quantas mulheres estariam fazendo poses e escolhendo qual o melhor ângulo para serem vistas e para observar o ambiente e  às demais pessoas?
Alguns jovens casais sentados a uma curta distância mantinham um comportamento extravagante e barulhento; será que eles realmente acreditam que intimidade é falar e ouvir palavrões sem demonstrar constrangimento? Será que barulho e gritaria constantes viraram sinônimo de diversão; exibicionismo sinônimo de virilidade?
Alguns homens acreditam realmente que para ser macho é necessário sentar de pernas abertas, falar alto, beber exageradamente e olhar indiscretamente para outras? Por que - na balada - algumas mulheres permitem que seus namorados se comportem de maneira tão grosseria?
Na mesa ao lado notei a transformação de pessoas timidas e sérias: após algumas cervejas viraram pessoas-purpurinas e pessoas-estrelas a vagar pelo salão... vi as primeiras grudando na boca de muitos na mais absoluta "democracia", vi as segundas - mais seletivas - com ar de superioridade escolhendo a quem privilegiar com seu brilho.
Percebi meu tédio aumentar - mesmo após duas taças de lambrusco - e esta constatação me fez crer que há salvação para meu corpo (afinal a bebida alcóolica já não me diverte tanto) talvez um dia ele volte a ser habitável à minh'alma.
Saí para conversar com minhas amigas, uma hora mais tarde o assunto já estava em dia. Quis ouvir música ao vivo, três musicas depois já não ouvi mais nenhuma. Pensei em exercitar a paquera, notei que a minha boa vontade em tentar me fez melhorar neste quesito (ganhei convites vips para shows de cantores dos quais não conhecia o repertório -kkkk...) - por fim - o tédio me abraçou e não houve nada nem ninguém que me fizesse querer desvencilhar daquele abraço.
E sem conseguir dizer mais nada, como num brinde, recorro ao meu adorado cantor:

"Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão..."
(Oswaldo Montenegro).
 

domingo, 30 de outubro de 2011

DIVÓRCIO

Levas contigo meu olhar sereno e alegre,
Como daqueles que amam o vento que lhe sopram o rosto;
Levas contigo a certeza de que tudo foi extasiante,
Como quando andamos nus na praia sob a luz do sol;
Levas contigo esta sensação de vida e prazer, 
Como quando os corações pulsam em vênus.

Deixas comigo o teu sombrero mexicano,
aquele ridículo que me faz rir;
Deixas o último terço de teu vinho predileto,
aquele que tem gosto de beijo;
Deixas também o quadro que não gosto,
aquele que me deste sem moldura.

Deixas que eu sinta a casa vazia,
que - em meu ser - estou cheia de ti...


domingo, 16 de outubro de 2011

"CONFISSÃO
Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Mário Quintana"


Meu processo de auto-perdão, por certo,  perdurará por longo período. Enquanto este tempo deve ser aguardado com serenidade, aproveito para abrandar em meu espírito as chamas que outrora expus e propaguei com orgulho.

Bobagem dizer que "não me arrependo do que fiz", seria como mentir descarademente diante de meu próprio espelho. Eu me arrependo de todas as atitudes que tomei, acreditando piamente que assim deveria ser, mas que fizeram pessoas queridas sofrerem.

Percebo que o dinamismo da liberdade - de alguma maneira - aprisiona o ser; é como poder voar e ter medo de altura. Isto porque liberdade acarreta responsabilidade; lembro que (quando eu era criança) minha mãe me deu a chave de casa e disse "agora você é responsável". Ora, eu queria apenas o direito de ir e vir a hora que bem entendesse, não queria ser "responsável" por nada nem por ninguém.

O amor é capaz de superar grandes obstáculos, contudo estou vivenciando um momento em que o maior sabotador de minha paz sou eu mesma. Porque é muito fácil rever algumas atitudes, ser flexível e desistir de sonhos insensatos; concomitantemente é muito difícil recomeçar diante do medo de fraquejar em velhos hábitos e tendências... Algumas vezes sinto que a oportunidade de alegria e serenidade está em praticar ioga no núcleo do inferno (e isto eu sei que posso).