quinta-feira, 31 de março de 2011

Reencontrei meu ex-amor!

 
"Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos."
 
Clarice Lispector 


Existe algo  inefável num reencontro com um ex-amor; Noemi Jaffe questinou em seu blog  "como dizer inefável impunemente?" - eu respondo que " o inefável já é a própria punição".

Como definir o vacilar na atitude ao beijar o rosto daquele que há pouco tempo beijavamos a boca, lambiamos a virilha, sentiamos o calor de cada poro, tocavamos cada cantinho sob pêlos...

Como comportar-se diante daquele olhar vago e quase introspectivo que ele nos lança ao perguntar "como você está". E quanto àquela distância entre a pergunta em sí e o que de fato ela significa? Parece um questionamento ingênuo, coisa de amigo,  mas sabemos que existem outras questões sendo feitas: você já me esqueceu; está com alguém; sente a minha falta; lamenta a nossa distância; teve vontade de voltar; como sobreviveu sem meu amor?????

A resposta é bem objetiva, olho-no-olho - que ninguém ali é medroso - "estou bem, trabalhando bastante, alguns problemas para resolver, mas de resto tudo bem". E este "RESTO" espontâneo descortina em nossa mente o lugar exato onde nos últimos tempos haviamos colocado esta pessoa ex-amada.

É muito interessante esta forma em comum que muitos de nós temos ao lidar com um ex-amor: recomeçamos a respirar um ar só nosso - isso nos assusta e dá prazer;  reencontramos novos amigos; por sintonia começamos a atrair um monte de gente recém separada e quase que formamos um clubinho; saimos para curtir todos os lugares que ele não ia conosco; paqueramos; nossa vaidade estética fica mais aflorada; enfim, para ajudar a esquecer brincamos de ser feliz.

Concomitantemente lembramos do tal RESTO numa música que há muito não tocava no rádio, no perfume dum desconhecido; no jeito de sorrir de fulano; na frase que lemos numa revista; na data de nosso aniversário; na cor da parede da casa; no saca-rolhas; nas velas aromáticas; no bibelô ridiculo que tivemos que colocar na estante; no vestido curto que usavamos para provocá-lo; na cena dum filme recém lançado; na ante-sala do médico; na ressaca do dia seguinte; nas mensagens que não chegam; na lista de pessoas que sentimos saudade mas não podemos ver porque na partilha elas não ficaram conosco; etc.

Num reencontro temos a sensação de que se voltássemos um para o outro poderíamos rever alguns pontos conflitantes, poderíamos deixar de lado algumas implicâncias, poderíamos melhorar nossos maus hábitos... Vêm na lembrança nossos momentos alegres! Chegamos até mesmo a considerar tolos os motivos pelos quais nos separamos!

Olhamos para aquele ser e temos mapeados em nossa mente cada traço, cada detalhe daquele corpo; sabemos cada gosto, o significado dos pequeninos gestos; percebemos quando ele tem medo, quando está bravo, quando não quer falar, quando está com fome, quando quer nos fuzilar, quando está confuso, quando não aprova, quando deseja... Sem contar que para ele é impossível mentir, então de repente, temos consciência que ele sabe praticamente tudo o que estamos sentindo e pensando; no entanto não temos reservas: ELE PODE!

Nosso reencontro nos deixou mais conscientes de que, ainda, não estamos dispostos a mudar alguns velhos conceitos; ou sacrificar antigos hábitos; ou parar de insistir naquelas questões que o outro não valoriza.
Intimamente ficamos felizes por termos nos visto e, também, chorosos por sabermos que em algum ponto do caminho perdemo-nos um do outro. 

Depois de silêncios constrangedores e comprometedores - num momento derradeiro entre o pedir para ficar e o deixar ir embora - nos abraçamos carinhosamente e, desta vez sem titubear, nos beijamos no rosto... Tchau, vai com Deus! - Tchau, se cuida!
...  a única certeza é que nestes momentos INEFÁVEL é o sabor das lágrimas que veem do coração até os lábios trêmulos.

     
"Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda."

 Clarice Lispector 
 

quarta-feira, 23 de março de 2011

Vá viver, animal!

Cair na pista; fazer a fila andar (ou tirar racha); doar o bombonzinho para o universo... Tudo faz parte da mesma regra: vá viver, animal!

Nós - mulheres amalucadas, meninas depressivas, safadas enrústidas, criaturinhas egoístas, mulherzinhas apaixonadas por menininhos volúveis, prestemos atenção: pára tudo!!! Ora, ficar abocanhando migalhas de atenção? - Que coisa "sem noção"!

Fazer a fila andar? - Lógico, paremos de reclamar que não encontramos ninguém interessante, que todos os homens são chatos, que só pensam em sexo (como se isso fosse problema!) e que não sabem conversar (como se nós não falássemos asneiras!). 

Quanto à parte mais complicada, "doar o bombonzinho para o universo", vale lembrar que ,  independente de abrir-mos mão ou não do chocolatinho, existem um montão de vacas-sacanas que  o lamberam ou irão lamber e - toda vez que o pegarmos de volta para reavivar nosso amor - é assim que ele virá (lambido, mordido e rodado). Pensemos nisso, se não houver nada de nobre que nos convença a dar espaço para que outro amor chegue até nós, como por exemplo a auto-estima e o amor próprio, então que seja por  uma questão de quase-vingança (não é bonito, mas é válido).

Gente, que tal deixar a máscara da "boa moça" de lado e viver o outro lado, o  da "bonitinha e ordinária"? - Vamos montar uma catraca eletrônica e distribuir cartão para todos os machos com potencial de beijo bom. Os simpáticos e bonachões também (por que não?), eles são necessários para nos distrair.

Lembro que certa vez houve uma reunião de diretoria numa organização muito conhecida, todas as pessoas convocadas eram cultas e inteligentes (mestres e doutores). Em dado momento, começaram as  conversas leves para relaxar da pauta enfadonha, eis que uma mulher (nota mil) diz: "para eu me relacionar com alguém, preciso antes ver o cúrriculo", ao que o colega macho (nota mil) responde - "eu dispenso o -rrículo e fico com a primeira sílaba".

Os homens são dadivosos, não exigem tanto de nós, basta um visual legal, um bom perfume e saber rebolar (e este "rebolar" não quer dizer que precisemos saber dançar). Enquanto nós mulheres, crianças tolas, ficamos fazendo comparações, criando situações, fazendo pesquisa de campo, perguntando demais... Chega disso mulherada, vamos passar um brilho nos lábios, estampar um sorriso alegre, deixar o cúrriculo em casa (afinal, a princípio, ele vai se interessar somente pela primeira sílaba) e vamos viver nosso lado selvagem-despudorado... 

Queridas amigas, liguemos o "foda-se" e deixemos que ele pisque na cara do infeliz que não nos dá o valor que merecemos!!! 

Agora uma conversinha ao pé-d'ouvido: "amiga  adorada, concentra suas energias em você; respeite suas necessidades; não relute contra as verdades que lhe são jogadas ao focinho; reacenda sua luz interior mesmo que as vezes ela pareça fraca como o neon dum velho motel (insista!); seja arrojada, não disperse a atenção de seus antigos objetivos (aqueles que já existiam antes desta criatura atravancar a sua vida)... Respeita a regra, animal!"
Quando ondas de raiva lhe invadem o sangue é o momento de agir porque a espera é um veneno que mata lentamente.
A inércia ou uma ação contrária à nossa alma é uma espécie de morte prematura. Portanto, faça um patchwork dos seus sentimentos-trapos e vá viver!

Veja, no poema abaixo, como um homem deve contemplar uma mulher:


Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.


Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já não me fica mais de resto.


Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.


Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que, quanto mais vos pago, mais vos devo.


sábado, 19 de março de 2011

Fragmentos Meus...


Desengano
"...uma flor na lapela; um homem em desalinho; no chão, um coração murcho."


Opções
Quando viver necessitar recesso;
quando falar não for suficiente;
quando existir der calafrios;
quando amar for inapropriado;
quando doer... 
Insista ou desista!

 
O que é o  " ó " ?
O ó  é a quarta vogal;
Sem ele nã- existiria - am-r;
Nã- enquant- palavra...

Mas a amizade, essa existiria;
Minha amiga, minha nega;
Minha adorada...
Tud- iss- e mais um p-uc-!

Mesm- sem te chamar;
Mesm- sem ter c-m- dizer;
Ainda assim, SENTIMENT-S!

Nã- p-der falar, nem p-der -uvir;
Pi-r de tud-, saber que ficar
é - mesm- que te ver partir,
Iss- certamente é - verdadeir-: Ó!!!


Conflito Patético
Há um pequeno instante entre amar e não amar;
um conflito patético entre a pele e a roupa que a protege;
como para aquecer quisesse apenas pele;
como para proteger bastasse apenas roupa.


Quebra-cabeças
Ouvir, entender, amar: tresloucada mulher!
Por que motivo ensurdessestes ao meu clamor -
"se me amas; ama me somente!";

Suplico no entanto, se minha face pétala fosse
dormiria e amanheceria orvalhada,
Deixas que eu vá!

Brindastes em companhia de anjos;
entorpecida, adormecestes com teus demônios;
Mas eu, sim eu, acordei-te com beijo ardente -
mistura avassaladora, num vendaval fui teu refúgio.

Ficastes comigo, o quanto pudestes, bem menos do que quisestes;
Contudo, amor, arrebatastes e levastes contigo tudo aquilo que - nosso -
ninguém foi capaz de sondar...
Pegas o que é nosso, reparta-o comigo, segues teu caminho!

Quando, noutros dias, noutros tempos, te lembrares de "nós"
Já não haverá ardor, tão pouco este calor, mas - todo o sagrado -
haverá sorriso em lugar de pranto;
haverá serenidade em lugar de insônia.

Se sereis feliz, sem mim, ora, claro que não!
Serás contente! 
Rogo-te uma praga:
buscarás em outras, características minhas.

Conseguirás encontrar-me em mil mulheres e
Terás enfim satisfeito a tua vontade, total controle;
Serás minha dona, me disporás em tua sala pendurada,
Oh, que linda paisagem colada: uma mulher por ti emoldurada!
 
Leia também, Ouvir Estrelas, de Olavo Bilac: 
http://pensador.uol.com.br/poemas_olavo_bilac/

Imagem: http://domescobar.blogspot.com

sexta-feira, 11 de março de 2011

O que as mulheres querem dum homem patife?

Eu tenho uma amiga patife! Ela é a pior rameira que já conheci! Contudo, a desavergonhada é tão carinhosa, tão charmosa, tão louca, tão prevísivel na safadeza e tão imprevisível nas atitudes que atrai os homens e os põe a perder (ou se achar, depende do ponto de vista). O melhor de tudo: a menina é sincera; extremamente sincera, não engana ninguém. Fala o que quer e o que gosta, sem medo e sem vergonha.
Fiquei pensando muito a este respeito: por que é que os homens ficam aos pés desta descarada?
Não tardei a entender, o xis da questão é que os iguais se atraem. Não adianta que os ditados populares digam ao contrário, são os bicudos os únicos capazes de se bicarem.
Mas, afinal, o que as mulheres querem dum homem patife? Respondo por mim para não expor a galera: quero um patife sincero.
Atualmente estou um pouco decepcionada por causa das descobertas que fiz: o príncipe encantado sumiu (há quem diga que ele virou veado e fugiu com o gato de botas); a Chapéuzinho  Vermelho ficou traumatizada com o lobo mal, virou messalina e toca um puteiro em Trásdosmontes; os sete anões não eram anões, eram homens safados que andavam ajoelhados para ver a calcinha da Branca de Neve; a Bela Adormecida passou três dias numa festa rave e por isso não conseguia acordar; os três porquinhos reunidos na casa de alvenaria aproveitaram o ensejo e fizeram uma baita suruba; isso tudo sem contar o que aconteceu com a fada Sininho no mundo de Peter Pan... Gente, a coisa tá feia! Homem que cospe no chão e briga na rua, a noite morde a fronha e usa calcinha e top com lantejoulas coloridas.
Diante disso, quando chega um patife de primeira grandeza diante de mim e diz que me deseja, que eu sou linda, gostosa; que quer me proporcionar diversão, prazer, boa companhia, carinho e lealdade (que não é fidelidade) - poxa vida, honestamente, que maravilha! Viva à sociedade, antes uma pequena porcentagem duma empresa próspera que 100% duma empresa falida.
São bem vindos os adoráveis patifes, aqueles que fazem jus aos títulos de brejeiros, desavergonhados, descarados, malandros e marotos!  Agora, muita calma, vale um alerta: isso dá certo quando a mulher é tão patife quanto o homem. É o lance dos "dois bicudos" e "dos iguais", precisa haver sintonia de desejos e objetivos. Se não for o caso, meu amor, é melhor ir ao cinema assistir uma comédia romântica, comer pipoca doce e, se tiver coragem, ao tomar banho use a duchinha pra massagear lá, aquele cantinho que eles para nossa perdição sempre acertam (exceto os falsos patifes).

Antonio Banderas





quinta-feira, 3 de março de 2011

Por que, para mim, a felicidade está na próxima esquina?

Já sofri por dedicar um amor puro e por não ter como retorno reconhecimento, dedicação e comprometimento. Também já sofri por ser amada e não poder corresponder.
Notei que embora eu reconhecesse, me dedicasse e me comprometesse com o amor,  não era suficiente; porque de ambas as partes o amor também requer abnegação, requer desapego, requer domínio próprio... E requer tudo naturalmente, com espontaneidade, sem que o um ou o outro se sinta carente em suas necessidades individuais.
"Necessidades individuais", é nesse quesito que as coisas ficam difíceis! Eu disse certa vez: "o que me compraz é a busca; por ela sou vitima e sujeito; o que busco é mutante como eu". Talvez, agindo assim, possa justificar porque vislumbro a felicidade, ali adiante, na próxima esquina...
A intimidade é algo brutal, faz com que eu me torne transparente ao outro, contudo sempre existirá - entre eu e ele - uma barreira: a individualidade (como vidro límpido, ainda que eu não queira dar-lhe importância, existe).


Poesia de Anna Akhmátova

Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.


Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.


Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes por que já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


(retirado da antologia "Só o sangue cheira a sangue",
tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra Assírio & Alvim, 2000)

http://nusingular.blogspot.com/2008/02/um-poema-de-anna-akhmtova.html

Imagem: http://2.bp.blogspot.com