quinta-feira, 3 de março de 2011

Por que, para mim, a felicidade está na próxima esquina?

Já sofri por dedicar um amor puro e por não ter como retorno reconhecimento, dedicação e comprometimento. Também já sofri por ser amada e não poder corresponder.
Notei que embora eu reconhecesse, me dedicasse e me comprometesse com o amor,  não era suficiente; porque de ambas as partes o amor também requer abnegação, requer desapego, requer domínio próprio... E requer tudo naturalmente, com espontaneidade, sem que o um ou o outro se sinta carente em suas necessidades individuais.
"Necessidades individuais", é nesse quesito que as coisas ficam difíceis! Eu disse certa vez: "o que me compraz é a busca; por ela sou vitima e sujeito; o que busco é mutante como eu". Talvez, agindo assim, possa justificar porque vislumbro a felicidade, ali adiante, na próxima esquina...
A intimidade é algo brutal, faz com que eu me torne transparente ao outro, contudo sempre existirá - entre eu e ele - uma barreira: a individualidade (como vidro límpido, ainda que eu não queira dar-lhe importância, existe).


Poesia de Anna Akhmátova

Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.


Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.


Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes por que já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


(retirado da antologia "Só o sangue cheira a sangue",
tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra Assírio & Alvim, 2000)

http://nusingular.blogspot.com/2008/02/um-poema-de-anna-akhmtova.html

Imagem: http://2.bp.blogspot.com

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