domingo, 26 de junho de 2011

FACES DE VÊNUS

Na representação clássica (greco-romana) Vênus é uma deusa branca de anatomia divinal;  simbolizando a beleza, o erotismo e o amor. No filme lançado pelo Festival Varilux de Cinema Francês a Vênus Negra retratada, por ser negra, foi vista em 1810 pela sociedade da época como alvo de exibicionismo, sensacionalismo e voyerismo, além disso, teve o corpo em vida e pós-morte estudado por cientistas (veja comentários do filme em: http://profmaisaalves.blogspot.com/).

A condição da personagem principal do filme (persuadida, ludibriada, distante do seu habitat, explorada, seviciada, desrespeitada, etc) me fez refletir à respeito da condição feminina na sociedade moderna sob diversos aspectos como: a inteligência e a capacidade de escolha (direito ao voto); a revolução sexual (contraceptivos que dão direito a sexo por prazer e não somente para procriação); a busca pela equiparação salarial no mercado de trabalho ao desenvolver tarefas com a mesma eficácia que o homem; as pseudo-obrigações feminino-familiares de multiplas facetas ao contribuir com o sustento e a gestão do lar (administradora), a educação dos filhos (educadora),  propiciar o equilibrio e a harmonia na convivência (psicóloga-terapeuta); providenciar os presentes de aniversários e ficar atenta aos compromissos (secretária); o controle do orçamento e pesquisa de mercado (gestora financeira); etc.
Outra questão, a estética, também é motivo de reflexão: o ser negra-mulata-loira-amarela-azul; o estar gorda ou magra; o ser considerada feia ou bonita; o ser muito baixa ou alta. 

A demasiada importância que se dá à aparência física é, ao meu  ver,  um dos principais fatores  que transformam os seres humanos em alvos de exibicionismo, sensacionalismo e voyerismo - daí  se note (sem generalização preconceituosa) alguns indicativos como: os desfiles de carnaval (exibindo os quase-peladões alegóricos), os telejornais apelativos (dizendo - homem de 300 kilos sai de casa à guindaste), os programas modais populares (mostrando os dotes frutíferos da mulher melancia-morango-cajú, etc). 

Dramatizando e exagerando minha condição feminina na atualidade, as vezes me sinto como a Vênus Negra do século XIX no tocante ao estar enredada num contexto social repressor das diferenças e ser obrigada a representar a roupagem-psicológica com que me vestem para eu ser aceita. Sinto a necessidade de estar inserida num grupo, de reconhecer características minhas em outras pessoas, de ter como referência  comportamental o meio ao qual faço parte ,  ainda que seja para  contrariá-los ou chocá-los sendo diferente.  

Diante de tantas reflexões, concluo que: prefiro pensar na Vênus do amor. Prefiro pensar na sociedade das utopias (justa, bondosa, fraterna, pacífica). Prefiro os amores idealizados e as iluzões que nos aliviam temporariamente duma verdade triste. Prefiro ver a mulher como bela, sensual, inteligente, corajosa, versátil e poderosa. E me permito (ainda que aqui na escrita) acreditar no impossível, no milagroso, no libertador, na evolução, no SER HUMANO.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

PAIXÃO

Muito lhe devo...sem paga.
Mas o animal não segue regras...
segue os instintos...
sente no ar o teu cheiro...
e uiva enlouquecidamente para a lua, chamando teu nome.

Nada lhe devo... esta é a paga.
Amoral como Macunaíma, heroina dos guetos e dos hotéis vagabundos...
Marginalizada como prostituta sem cafetão...
Minha fome não cessa, a pele continua em brasas...
Tuas garras marcaram-me a carne, são troféus as cicatrizes...
Não preciso do cheiro, nem do gosto, nem da lua, nem do nome.

Jaz em meu peito a volúpia dum impotente diante da rapariga barata...
Como deserto escaldante que esfria ao anoitecer estão os meus sentidos.
Não faz diferença se ris ou se choras, nada me desola ou consola...
Emudeci, não sinto batimentos cardiacos, não ouço, não vejo... penso.

Uma parte de mim vaga à esmo, a outra tem parada certa: o sol!

Imagem: anadaydrems.blogspot.com