quarta-feira, 3 de agosto de 2011

DEUS, ME OUÇA!

Senhor,

No sopro dum instante, como num vento leve que quase levanta uma folha seca do chão, minhas raízes feriram-se... olho meu reflexo no espelho e não há viço em minha pele.

Sinto-me como uma andarilha suja e rota a andar desorientada e cabisbaixa por entre ruas que outrora me acolheram em momentos de alegria e satisfação, contudo eu nunca soube o quanto era alegre e satisfeita até notar o rascunho de gente que me tornei. 

Ontem via o mundo refletido em olhos serenos e apaziguadores, hoje minha alma cegou porque não há luz no mundo que reflita as coisas com o mesmo brilho.

Acredito que a continuidade da vida está numa árvore que plantamos, nos conhecimentos que adquirimos, nas coisas boas que praticamos, nos filhos  (mesmo aqueles que não sairam de nossas entranhas), no amor que semeamos nos corações alheios... 

Acredito, também, que a continuidade da vida está em nossos antepassados, na árvore genealógica que foi plantada (graças ao Senhor) e da qual fazemos parte mesmo que não reconheçamos as características oriundas da primeira semente...

Nós somos em muitas estações como flores celestes, cheias de beleza e perfume; noutras somos galhos finos que apontam para o céu e comemoram sob a luz do sol a maravilha de um novo dia; noutras somos como troncos cheios de nós e cicatrizes, porém fortes e imperiosos...

Sinto que não há nada que possamos fazer que nos poupe de ter as sensações causadas pelas intempéries dos tempos e, ainda que impercepitível aos transeuntes, lá nas profundezas do solo sagrado estão as raízes que nos alimentam  silenciosa e resignadamente.  Por isso - pela dor que nos propícia oportunidades de aprimoramento e pelo auxílio da providência divina que jamais nos abandona - eu agradeço!

Tenho clareza de que nossas raízes na Terra são a nossa família - a família que muito antes de renascermos já havíamos escolhido: nosso pai, nossa mãe, os irmãos (ainda que não haja laços consanguineos), nossos amigos... Todos estes companheiros de jornada que estão conosco por tempo pré-determinado e - embora saibamos que um dia esta convivência sofrerá uma pausa - eles são como bençãos a nos auxiliar no caminho do progresso.

No entanto meu Deus, rogo-lhe: como deixar para trás alguém a quem amamos e com quem partilhamos momentos preciosos de nosso passado? E como desapegar dum passado que é tão cravado em nossa mente que  parece ser o único ponto de referência de nossa ligação com o resto do mundo?

Como podemos passear e ver paisagens e cores e objetos; como podemos sentir o cheiro das flores e do mato; como podemos tocar nos objetos e abraçar outros seres e tatear outras texturas; como podemos ouvir outras músicas e o canto dos pássaros e o latido dos cães e o ronronar dos gatos; como podemos chorar outro pranto e rir outro riso? - Por Deus, como podemos usar nossos sentidos para outros interesses que não sejam os de revelar e buscar e prorrogar a presença do ser ausente em nossa mente????

Por que não me lembraram que ausência não quer dizer distância - e que distância só existe quando não encontramos meios de transpor a barreira do tempo de volta para o passado? - Senhor,  me dê a aceitação de que toda vez que penso em alguém o trago para perto de mim através das minhas lembranças: se lembranças tristes, faço a pessoa triste; se lembranças alegres , faço a pessoa alegre. Por favor, me ajude a ver e sentir as coisas com mais simplicidade, menos lamento e mais fé.

Aceito e compreendo que a "morte" é como a continuidade da vida em outro lugar, é um meio do Espírito transpor a barreira do corpo carnal e regressar ao seu lar espiritual. E por assim compreender, acredito sinceramente que quando formos embora deste planeta (morrendo sem nos matarmos) iremos fazer a viagem de regresso ao encontro de nossa família, daqueles que nos antecederam...

Meu Deus, muito embora eu já tenha tido vontade de morrer no lugar de outra pessoa a qual muito amo; entendi que não há possibilidade de carregar pelo outro os fardos que lhe cabem nesta jornada sem, com isso, prejudicar-lhe a as oportunidades de aprendizado e evolução. Mas peço para que este entendimento não me impeça de ser útil e ajudar meu semelhante até o último instante de minha vida terrena, aceitando que não tenho o direito de abreviar tão pouco tenho o poder de prorrogar a vida de nenhum ser vivente. 

Tudo está certo, segundo seus designios Pai Celeste (que eu consiga sentir esta verdade mesmo nos momentos de muita dor).

Já melhorando meu estado d'alma, sei que devo usar meus sentidos (tato, olfato, paladar, visão, audição e intuição) para meu bem maior e para auxiliar a tantos quanto eu puder fazer o bem. Mas quero - também e sempre - usá-los para buscar as lembranças dos momentos felizes junto àqueles meus amados que já se foram deste mundão. Muito obrigada por me conceder o privilégio de ter estado com todos eles!

Quero me dar ao direito de buscar a minha felicidade e quero o dom do amor (inspirado pelos exemplos de Jesus) para que me ajude a respeitar todas as formas de ser feliz, mesmo aquelas que possam contrariar a minha maneira de pensar. 

Quero que em minha árvore-genealógica-afetiva haja harmonia e que minhas sementes do passado sejam motivos de alegria partilhada e multiplicada. E quando eu reencontrar meus amores na pátria espiritual quero levar-lhes o bálsamo das belas flores e retribuir-lhes os bons frutos que fizeram brotar em meu coração.

Amém.

Um comentário:

  1. Profundo. Mas amargurado!
    Espero que fiques bem!
    Me reconheço em algumas frases.
    Saudade!

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