quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Eclipse de-Mental

Tive receio, não, tive medo; verdadeiro pânico de não voltar a escrever. Lembrando de "Cartas a um Jovem Poeta - de Rainer Maria Rilke", eu posso dizer que morreria se me fosse vedado escrever. Estou dizendo isto porque fui acometida, recentemente, por uma doença que me tirou o ânimo de escrever. Vou lhe contar...

Há pouco tempo minha existência passou por grandes tormentas, enormes catástrofes naturais, inundações terríveis..., enfim algo que meu espírito traduz como "Estado Lastimável de Cólera e Loucura (ELCL)".

O ELCL me arrebatou, levou para longe minha serenidade, tirou minha vontade de sorrir, surrupiou descaradamente meu poder de discernimento, arrefeceu minhas forças físicas, tornou minha mente um banheiro de botiquim de quinta categoria, me cegou, aniquilou e zombou de  meu auto-controle.

Como, por Deus, encontrar beleza e relevância em expressar tamanho prazer na sede de vingança e na vigorosa força motriz da revolta; tamanha revolta que se médica fosse portaria no bolso do meu jaléco uma faca para matar moribundos. Tão tola que seria capaz de beber veneno para lombriga descomida; absurdamente insana que me armaria de flechas para atingir beija-flores; sádica, que acenderia dinamite entre meus dentes.

A cólera me proporcionou a imensa satisfação de saber que posso ser tão perigosa quanto um animal ferido e encurralado; saber que meus pensamentos podem ser bem piores que canto lírico numa balada eletrônica, ou ainda, meus atos mais desconexos que oferecer luneta a um cego. 

Lástima maior é sentir pena de si mesma, porque querer ser digna de pena é tão comum e tão, proporcionalmente, de mal gosto quanto pagar para ver um show do Luan Santana.

Quanto a loucura, insisto em vê-la de forma positiva, ela é minha salvação. A loucura é o que proporciona aos seres insatisfeitos fugirem de sí mesmos, sairem dos padrões, esquecerem-se de lembrar do fardo a carregar; etc. A loucura é a única possibilidade de eu ser inocentada ao praticar o inapropriado... No entanto, o risco de permanecer louca é o que preocupa.

Desta feita, já covalescente, tenho consciência plena que aos seres quase normais (como eu) resta apenas a grata certeza de saber que podemos ser sequestradas emocionalmente a qualquer momento (kkkk). 

Sei muitas coisas, agora que meu ELCL passou:  sei que não escrever é minha sentença de morte; sei que os sentimentos negativos também são - evidentemente -um pedaço de mim e sei que insistir em negá-los seria como me acovardar e me submeter ao domínio do mal dentro da prisão chamada culpa. 

Existe a sombra, aceito, mas minha mente prefere a luz!

domingo, 1 de janeiro de 2012

Anita Mulher! Eu anta!

Anita saiu de casa aos 14 anos de idade. Havia se apaixonado por uma mulher mais velha e simplesmente resolveu partir. Imagino a reação de descontentamento de seus parentes, principalmente seu pai - a quem ela tanto admira, contudo na época nada poderia ser feito para impedi-la, a menina era precocemente mulher e lésbica, ponto.
Mulher de grandes gestos e atitudes, voz leve com entonação firme - sabe usar muito bem os pequenos intervalos de silêncio e ao dialogar faz - vez em quando - um olhar perdido no horizonte como se estivesse considerando se o que ouve deve ser realmente levado em conta de importância.
Tem coxas grossas, quadril largo, cintura bem delineada, seios medianos, mãos grandes, dedos grossos, cabelos castanhos com mechas louras; olhos, nariz e lábios desenhados com perfeição e harmonia. Aliás, foram seus olhos e lábios que me fizeram perder a noção de tempo e espaço naquela noite...
A ex-namorada dela foi embora para Madri, como a história cantada numa música  sertaneja da moda, deve ser por isso que a beldade sai prum happy-hour às sextas-feiras para ouvir pagodão e samba. Ninguém é perfeito, credo, minha musa gosta de pagode e acompanha as letras com olhos brilhantes e "voz-de-taquara-rachada" (segundo sua própria definição).
Anita adora pessoas, não consegue se ver num ambiente onde não possa interagir; cursa psicologia porque atua em gestão de pessoas. Tem 22 anos de idade, já foi casada, terminou seu último relacionamento há 5 meses e confessa que tem muito medo de sofrer. Este medo a fez bloquear-se afim de proteger seu coração! 
Percebi que não é do tipo de pessoa que se entrega facilmente às emoções, fica sempre alerta e reserva lugares (na vida das pessoas) perto da saída de emergência - qualquer sensação de perigo a faz bater em retirada. Ela me disse que este bloqueio que possui, também é um dos motivos que a fizeram cursar psicologia (embora em seguida tenha desmentido este espontâneo comentário) e que o curso a fez melhorar e ampliar seus horizontes de compreensão sobre si mesma.
Anita, entre razão e emoção, prima pela razão. Disse que não é do tipo "mulher-fácil", só beija no terceiro ou quarto encontro e nisto eu sei que não foi verdadeira. Mas atenuo este ato-falho, acontece que o ideal para ela seria sair algumas vezes, conversar, fazer amizade, para depois - sim - beijar alguém; porque para ela o beijo é uma atitude de muita intimidade e elevada importância. "Não é assim, garota?"-rs.
Vou dizer o que penso do beijo: é ponto inicial dum relacionamento intimo, quando há amor é um reencontro de almas.  Entretanto, quando estamos emocionalmente carentes, um beijo pode ser a mensuração de nossa alegria e auto-estima: tô na merda, hoje não beijei ninguém; ou tô revigorada, beijei à beça.
Naquela noite eu estava acompanhada, mas não pude deixar de notar Anita. Tive vontade de conhecê-la, saber seu nome, seus gostos, ouvir sua voz, saber sua idade, conhecer seu amigo... Quando fui embora lhe dei um aceno e pronto.
Passada uma semana, voltei ao mesmo local no intuito de encontrá-la e encontrei. Obtive todas as informações que pude - num primeiro instante -conseguir ao seu respeito; mas houve algo que me fez ruminar como uma égua no pasto, foi um fato indigesto que observei. A moça, tão sexy e felina, gosta de mulheres (afirmou), mas sempre namorou aquelas mulheres meio-machinhos. A vi conversando com uma destas mulheres que (infelizmente, admito) me desanimam a libido, assim como me desanimam homens que coçam as partes baixas em público. 
Sinceramente não sei onde me encaixo neste velho mundo bissexual, talvez tudo seja bem simples e eu (que faço tanto drama) esteja querendo racionalizar demais. A questão que sempre me interessou foi o prazer e a auto-realização de exercer a minha sexualidade de maneira livre, livre inclusive de preconceitos, porém vez enquando ainda me pego em desvios mentais incompativeis com o meu agir liberal.
Blefei e iludi a mim mesma! Anita, você é melhor que eu!

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