terça-feira, 10 de março de 2015

TEATRO

É o fim do segundo ato, as cortinas se fecham. Na platéia um frenesi e um burburinho estérico. Daqui, da coxia, vejo pessoas que me são caras ao coração, vejo gente e todas as matizes de cores em suas vestes e em seus rostos. Gosto de espiar dos bastidores!
Só não sei porque faço tanto sucesso, não sei porque sou tão aplaudida, pois há muitíssimo tempo deixei de representar o personagem. Eu apresento a real persona em meu ser! Sou tão tola, sou tão delicada, sou tão arrogante, sou tão cruel, sou tão debochada, sou tão séria, sou tão leve, sou tão atraente, sou tão esquiva... E em sendo nada de tudo, represento tanto do que pouco sou, em profundidade e em grandeza, que meu reflexo chega aos outros simplesmente através - dos espelhos - de seus inconfessos gozos.
Porque há tanto de mim em cada um de todos os seres vivos que, não fosse eu humana, bem poderia ser um bicho, uma bactéria, uma planta.
A campainha toca uma; uma, duas; uma, duas, três vezes... O terceiro ato me espera! Reforço a maquiagem, troco de figurino, abrem-se as cortinas.
Quando reapareço, todos atentos, a fala é minha! Estou novamente concentrada e, outra vez, o pensar, o olhar, o refletir, já não me pertencem... Sou do mundo, dos que me olham (e nem sempre me veem)! Alguns sorriem, outros franzem a testa, aqueles chegam a revirar os olhos... Lá, bem lá no fundo, estão os que me amam, e é deles que vem a luz que ilumina este palco.

Nenhum comentário:

Postar um comentário